Defesa Civil contabiliza mais de 27 mil toneladas de alimentos doados a Brumadinho

Em entrevista ao Portal Sou Ecológico, profissional explica logística de recebimento e distribuição dos donativos

Da Redação / Ecológico – redacao@revistaecologico.com.br
Rompimento de Barragem
Publicado em: 03/02/2019

Mesmo com avisos de que alguns itens já são suficientes para atender a demanda mais urgente da população atingida pelo rompimento da barragem de rejeitos da Mina Córrego do Feijão, da Vale, doações continuam a chegar a Brumadinho (MG). Por isso, os esforços estão agora concentrados na organização dos donativos. Nesse sábado (02/02), oito dias após a tragédia, a Defesa Civil divulgou um balanço do que foi recebido pela prefeitura.

Donativos são concentrados em ginásio poliesportivo | Foto: Divulgação / Defesa Civil
Donativos são concentrados em ginásio poliesportivo | Foto: Divulgação / Defesa Civil

Foram contabilizados:

- 27 toneladas de alimentos/leite;

- 159 mil litros de água;

- 2 toneladas de roupas;

- 11 toneladas de material de limpeza;

- 870 quilos de alimentação animal.

O Secretário Nacional de Defesa Civil, Cel. Alexandre Lucas, informou que o trabalho da organização das doações é muito importante na gestão de risco de desastres. “Se não for feito de forma coordenada, isso pode causar outros problemas.” Ele destacou a experiência de profissionais de logística humanitária, como Douglas Sant'Anna, que atuou em Mariana, e agora está trabalhando em Brumadinho.

“É preciso que em caso de desastre, pessoas como o Douglas, com esse conhecimento e essa prática, possam ser credenciadas e enviadas aos locais destacados pela Defesa Civil Nacional.” Dessa forma, disse o Cel. Alexandre Lucas, municípios e estados poderão receber esses profissionais sabendo de que forma eles atuam. “Isso alivia muito as operações de socorro e de resgate. É mais uma pauta que nós vamos colocar no portfólio da Defesa Civil Nacional na gestão de riscos e desastres”, garantiu.


Logística permite melhor aproveitamento de doações em Brumadinho | Foto: divulgação / Douglas Sant'Anna
Logística permite melhor aproveitamento de doações em Brumadinho | Foto: Divulgação / Douglas Sant'Anna

Confira, a seguir, a entrevista com Douglas Sant'Anna, profissional de logística humanitária, que é responsável pela organização das doações em Brumadinho:

Sou Ecológico: Os donativos estão concentrados em um único local?

Douglas Sant'Anna: Existem vários pontos de apoio no município, mas o principal é no ginásio poliesportivo do município. Aqui dentro, temos a Vale, a Defesa Civil do Estado, voluntários, a Prefeitura; temos a coparceira de todos esses órgãos envolvidos.

Sou Ecológico: De onde vem a maior parte das doações?

Douglas Sant'Anna: De todo o Brasil. Nós recebemos doações de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Santa Catarina... De todo o Brasil mesmo, porque até as pessoas comuns aqui da cidade, que acabaram sendo impactadas de alguma forma, também contribuíram. A gente pode enfatizar que o processo de ajuda humanitária aqui em Brumadinho, como em outros lugares, é sim um trabalho conjunto – desde os órgãos governamentais, os não governamentais e a sociedade civil. Todos estão fazendo parte desse processo.

Sou Ecológico: Come é feita a gestão dos donativos?

Douglas Sant'Anna: Nós paralisamos a arrecadação porque temos uma quantidade grande de donativos. Paralisamos para fazer a contabilidade disso. Dentro do processo de logística humanitária, a predominância de recursos é de roupa. Isso demanda uma triagem minuciosa. É preciso fazer os kits para distribuir, atuar para fazer isso de forma organizada, para que não venham mais material que temos em excesso e acabe faltando aquilo que pode vir a ser necessário. Também é importante dizer que o desastre não é um evento isolado. Ele é um processo. As pessoas costumam doar nesse primeiro momento, mas os atingidos precisarão desse atendimento por, pelo menos, três meses. Por isso, temos de gerenciar os recursos para esse período que virá.

Sou Ecológico: Existe também o risco com os donativos perecíveis...

Douglas Sant'Anna: Sim, inclusive recebemos materiais já vencidos. Temos todo o trabalho de triar esse material, entrar em contato com a Vigilância Sanitária para que ela possa fazer o acompanhamento e o descarte. Ela acaba também entrando nesse processo.

Sou Ecológico: E a retirada das doações, como é feita?

Douglas Sant'Anna: A distribuição é feita por rotas de abastecimento, de forma que os veículos vão para fazer o atendimento emergencial e voltam com as informações de demandas específicas. Isso para a gente poder articular com a rede. A importância desse trabalho de roteirização da distribuição é para que também a gente atenda as demandas reais, não sobrecarregue um lado e deixe o outro desguarnecido. Além de ter os pontos de atendimento nos locais mais distantes para as pessoas que foram atingidas indiretamente. Os que perderam tudo estão em hotéis e recebem três refeições, segundo a Vale. Mas nós estamos levando a eles recursos complementares, tipo biscoito, leite... porque, às vezes, você, já abalado, não que comer aquela refeição, então tem outra possibilidade. É o que a gente faria em nossa casa.

Sou Ecológico: Como as roupas doadas são distribuídas?

Douglas Sant'Anna: Na questão da roupa, estamos criando um cadastro para que as pessoas possam retirar o que precisam. Elas experimentam a roupa, veem qual querem levar, qual calçado serve e pegam o que realmente vão utilizar.

Sou Ecológico: Se novas doações forem necessárias, como os interessados podem ajudar?

Douglas Sant'Anna: Eles podem acompanhar os informativos oficiais da prefeitura. O interessante é que algumas empresas também entraram em contato e se colocaram à disposição para atender a necessidade de algo que venha a surgir. Com o passar do tempo, novas demandas vão aparecer e é importante essa sensibilidade. Queremos trabalhar de forma organizada e respeitosa para todos os lados.

Sou Ecológico: Há uma questão sobre as doações frente o papel que deve ser cumprido pela Vale em relação aos atingidos... uma coisa exclui a outra? São complementares? Que avaliação faz disso?

Douglas Sant'Anna: Meu trabalho é humanitário. Não tenho poder de julgamento. Não posso julgar quem são os culpados. Eu tenho que aliviar o sofrimento dessas pessoas agora. A população brasileira se sensibilizou com essas pessoas. Então, eu tenho que cuidar da melhor maneira desses recursos para tentar diminuir o impacto na vida delas. Vamos tentar suprir a máxima necessidade possível dentro do que a gente tem e em articulação conjunta com todos esses atores, com a colaboração do povo brasileiro que doou, com a mão de obra desses voluntários e profissionais que estão aqui todos os dias se doando, dos agentes governamentais e não-governamentais que estão atuando desde a esfera de acolhimento até no gerenciamento de toda essa crise. Esse é o nosso papel. Hoje é baixar as bandeiras, baixar as divisões e trabalhar num único proposito: aliviar o impacto nessas famílias, porque eles já sofreram.


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