O cardeal do coração do povo

Dom Serafim deixou sua marca pessoal como excelente administrador e líder pastoral, guiado por seu temperamento cordial e simplicidade no trato com as pessoas e sempre inspirado no amor maior a Deus e à Igreja
Bia Fonte Nova – redacao@revistaecologico.com.br
Memória Iluminada
Edição 120 - Publicado em: 19/11/2019

“É preciso apenas sentir o coração do povo.” É por meio de frases como essa – ditas e sobretudo vivenciadas em seu sentido mais prático – que um dos mais queridos e respeitados líderes católicos do país segue vivo na memória de milhares de brasileiros.

Nascido em Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, o cardeal e arcebispo emérito de Belo Horizonte, Dom Serafim Fernandes de Araújo, morreu no último dia 8 de outubro, aos 95 anos de idade, deixando um respeitado legado de vida e de sabedoria.

Em seus mais de 50 anos dedicados à Arquidiocese da capital mineira, Dom Serafim deixou sua marca pessoal como excelente administrador e líder pastoral, guiado por seu temperamento cordial e simplicidade no trato com as pessoas e sempre inspirado no amor maior a Deus e à Igreja.

As lembranças da infância vivida em Itamarandiba e a ida, aos 12 anos de idade, para iniciar os seus estudos no Seminário de Diamantina, e sua ordenação como padre, em Roma, estão entre as muitas passagens relatadas por ele, em sua biografia “Na Palma da Mão de Deus”, lançada em 2009. No livro, há também histórias e casos pitorescos, incluindo a sua paixão pelo Clube Atlético Mineiro e a amizade com o Papa João Paulo II, por quem era chamado não de Serafim, mas de ‘Belo Horizonte’.

Terceiro arcebispo metropolitano de BH, dom Serafim sucedeu a dom João Resende Costa, tendo assumido também os cargos de vigário-geral, administrador e diretor de Ensino Religioso da Arquidiocese. Foi, ainda, professor de Cultura Religiosa e reitor da PUC Minas, além de patrono e fundador da Fundação Dom Cabral (FDC), juntamente com o professor Emerson de Almeida.

Desde os anos 1980, presidia a Fundação José Fernandes de Araújo – criada em homenagem a seu pai –, e reconhecida pelo relevante apoio à formação de estudantes carentes, por meio da concessão de bolsas de estudos.

Confira, a seguir, algumas de suas reflexões e pensamentos:

Origem do nome

“A história do meu nome é uma curiosidade que vale a pena contar. Minha mãe descobriu que estava grávida na cidade de Francisco Badaró, acompanhando meu pai em viagens de trabalho. Lá, havia uma amiga dela, conhecida por Iaiá. Ela disse à minha mãe que, se o filho fosse homem, lhe seria dado o nome de Serafim. Isso porque Iaiá tinha feito uma promessa de que um menino daquela cidade teria o nome Serafim, em homenagem ao frei capuchinho Serafim de Gorízia. Ele foi o desbravador e descobridor daquela região, tendo se dedicado à evangelização dos índios e fundado a cidade de Itacarambi.”

Vara de marmelo

“Todos nós apanhamos muito (eram 16 filhos). Lá em casa havia uma vara de marmelo que ficava pendurada na cozinha e todo mundo sabia qual era a sua serventia. A gente morria de medo do papai e, com isso, mamãe conseguia controlar a filharada.”

Perto da natureza

“Desde menino fui acostumado com fazendas. Uma coisa que, para mim, hoje falta nelas e que é uma inspiração, é uma bica d’água. A bica d’água serve para molhar a horta, tomar banho, lavar vasilhas e roupas, tocar o moinho.”

“Para mim, fazenda sempre foi o lugar preferido para descansar. Estar próximo da natureza, ouvir o mugido das vacas, sentir o cheiro das plantas, andar pelos arredores, tudo isso me renova as forças e me aproxima, ainda mais, de Deus.”

Influência literária

“Quando menino, nas férias, em Itamarandiba, li quase todos os livros de Malba Tahan. Talvez isso tenha influenciado minha facilidade com a narrativa. Também gostava de ler os livros sobre Tarzan. Os dois escritores que mais me influenciaram, mesmo nas leituras de formação, foram Paulo Setúbal e Humberto de Campos.”

Vocação religiosa

“Minha vocação religiosa surgiu cedo. Uma de minhas brincadeiras de criança era me fazer passar por padre e celebrar uma missa fictícia. Cortava pedaços de banana e distribuía aos meus irmãos, como se fossem hóstias.”

Aprendizado de vida

“Quando entrei para o seminário, em Diamantina, aquele menino que sofreu, dividido entre o amor dos pais e a ternura dos tios-padrinhos (com os quais morou na infância), acabou não ficando com nenhum dos dois. Deus me tirou dessa convivência direta com a família para servi-lo.”

“Com esse episódio, aprendi uma coisa que foi providencial e marcou toda a minha vida. Comecei a ser uma pessoa que não gosta de escolher ‘um lado’. Isso faz a gente sofrer demais. Não fazendo escolha de lados, me tornei uma pessoa de fácil convivência, querida por todo mundo.”

Paixão pelo Galo

“No seminário, uma coisa que fazíamos muito era jogar futebol. A gente jogava de batina: enrolava a batina, enfiava no bolso do calção e corria atrás da bola todo tempo livre que tínhamos. Comecei a crescer muito, magro, um garrafão comprido, então sempre fui o principal goleiro do seminário. ‘Frangueiro’, só vendo!...”

“Minha paixão pelo Atlético aconteceu mais tarde. Eu não conhecia nada de Belo Horizonte. Foi um colega, chamado Geraldo Magela, que era de Peçanha e morreu com uma febre no seminário, que me falou pela primeira vez do Atlético. Ele era torcedor e me falou do Kafunga, goleiro do time naquele tempo, do Guim, Lola, Bala, Guará etc.”

“Como bispo, pensei que não deveria dizer o nome do meu time. Alguns políticos não falam o nome do seu time para não perder os votos do outro lado. Depois mudei de ideia. Afinal, toda a vida tive meu time de futebol. E o time da gente é um pedaço da alma. É uma bandeira que a gente tem por dentro.”

“Eu nunca tive problemas com torcidas. Basta dizer que fiquei uma hora na igreja, junto com a noiva, esperando o Felício Brandi (ex-presidente do Cruzeiro) para celebrar o casamento deles, enquanto ele estava ‘roubando’ o Tostão do América...”

Dom de Deus

“Aprendi que o importante da pessoa é justamente o seu valor. Onde existe um valor bom, eu devo querer bem a esse valor. Seja do lado A ou B; desse ou daquele partido, branco, preto, seja gente de quem eu goste ou não. Se há um valor, é preciso ser considerado. E isso talvez seja um dos grandes dons que Deus me deu.”

“Deus me deu esse dom de gostar e de gostar todo, por inteiro. Das pessoas, dos lugares, das situações. Não fico pelas beiradas. Quando eu gosto, me entrego totalmente.”

Lágrima e coração

“Falo sempre que não se pode deixar nenhuma lágrima cair sem que haja alguém para enxugá-la. Isso aconteceu comigo em Gouveia. Durante os seis anos que passei lá, como padre, não houve nenhuma lágrima de alegria ou de tristeza que eu não tenha enxugado. E para isso acontecer, não é necessário fazer muita coisa. É preciso apenas sentir o coração do povo...”

Vela e doação

“Cheguei a Belo Horizonte no dia 31 de maio de 1959 e fui recebido no pátio da Catedral da Boa Viagem. Ao final da celebração, agradeci a todos pela recepção, dizendo que iria me consumir, comparando-me a uma vela. Assim como uma vela ilumina e se desgasta, chora de tristeza e de alegria, eu prometi que doaria minha vida a Belo Horizonte.”

Na mão de Deus

“Se me perguntam o que o cardinalato representou para mim, com toda a verdade diante de Deus, eu respondo que, de glória pessoal, não representou tanta coisa não. Mas representou muito para o povo de Minas, para o povo da minha terra, o Vale do Jequitinhonha, para o povo de Belo Horizonte.”

“Eu não merecia ser cardeal, mas o estado de Minas Gerais merecia ter um cardeal. Eu fico feliz, principalmente porque não escolheram uma pessoa que nasceu em um arranha-céu, mas uma que nasceu lá na pobreza do Vale do Jequitinhonha.”

“Talvez, por isso, o cardinalato tenha me introduzido em uma etapa de espiritualidade das mais bonitas... Foi justamente quando criei a frase: ‘na palma da mão de Deus’, que tem sido muito significativa para mim. Em todos os momentos, de alegria e de sofrimento, sei que estou na palma da mão de Deus.”

Homenagem ao pai

“A Fundação José Fernandes de Araújo – criada em 1980, com o objetivo de dar bolsas de estudos a alunos carentes da PUC Minas – surgiu a partir de uma inspiração que tive, quando do falecimento do meu pai. Quando ele morreu, em Belo Horizonte, não tinha nada, nem uma folha de cheque. Mas tinha uma família criada. Então, me veio no coração: eu quero morrer como meu pai, pobre, sem nada.”

Ternura e carinho

“Posso dizer que, na verdade, eu sou doido, sou louco pelo povo, pelo povo mais simples... Hoje, sou muito mais capaz de entender os sentimentos de ternura, de carinho das pessoas. O amor é tudo na Igreja, mas o canteiro do amor é a ternura.”

Futuro da Igreja

“Eu não vejo a Igreja como um poder no mundo, mas como um modo como Deus quer que o mundo seja. Para mim, o futuro do mundo é um futuro onde seja possível não que as Igrejas sejam iguais, mas que se unam para salvar o mundo que está aí. O diálogo inter-religioso e o ecumenismo são vitais para o presente e o futuro do cristianismo.”

O bem e a esperança

“Minha mãe foi uma grande bordadeira de crochê. Fazia montinhos de rodinhas que, dias depois, se uniam em colchas lindas. As rodinhas de crochê são o bem que existe no coração das pessoas. O que está precisando é alinhavar. É fazer a colcha. E esse é meu sonho.”

“O bem tem uma janelinha para se mostrar. O mal tem um Maracanã para se exibir. Tenho certeza de que o bem é muito maior do que o mal. A paciência para ver esse bem desabrochar é a filha mais bonita da minha esperança.”

Saiba mais: fjfa.org.br

Fonte: “Na palma da mão de Deus", Eduardo Franco, Graziela Cruz e Vânia Queiroz


Postar comentário